A metamorfose de Serena Brancale em Sanremo: do hit 'tamarro' à intimidade refinada de 'Qui con me'
A metamorfose de Serena Brancale em Sanremo: do hit popular à elegância de 'Qui con me', uma homenagem à mãe e à sua versatilidade artística.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
A metamorfose de Serena Brancale em Sanremo: do hit 'tamarro' à intimidade refinada de 'Qui con me'
Salve este texto e leia quando quiser: aqui proponho uma leitura que vai além do espetáculo. A cantora e compositora pugliese Serena Brancale, diplomada em canto jazz, voltou a ocupar o palco de Sanremo com uma transformação que não é apenas visual, mas narrativa — e que, ainda assim, não apaga as suas múltiplas facetas.
Esqueça a imagem da Serena Brancale mais tamarra de "Anema e core". Em 2026, ela compete com "Qui con me", uma música comovente que funciona como uma carta aberta à mãe, falecida em 2020, e que rapidamente figurou entre os favoritos: já apareceu no top cinco das preferências da sala de imprensa após a primeira noite do Festival.
Mas essa metamorfose não deve confundir: como ela própria disse em entrevista a Teresa Ciabatti para Sette, “um artista pode ser isto e aquilo”. A dualidade faz parte do seu roteiro — um pouco Dr Jekyll, um pouco Mr Hyde — ora intérprete sofisticada do jazz, ora criadora de refrões populares em dialeto barese. Foi justamente um desses hits, "Baccalà", que lhe deu a virada comercial.
As duas Serena se completam também na imagem. No ano passado, o visual era um loiro platina, postura de bomba sensual e looks chamativos pensados para um tormentone feito para dançar e viralizar no TikTok. Em 2026, aos 36 anos, a vemos de cabelo escuro, sóbria e elegante, vestida de branco — uma mise que privilegia a voz e a emoção, e que termina por emocionar a própria cantora devido ao tema íntimo da canção.
Ao centro deste trabalho está um laço familiar que atravessa palco e partitura: a regência da orquestra ficou a cargo da irmã, Nicole Brancale, professora de piano no conservatório. Ambas herdaram da mãe a paixão pela música. Serena recorda que a mãe, natural de Ceglie del Campo com origens venezuelanas, foi cantora e abriu uma escola de canto; amava a música latino-americana e costumavam dançar juntas. Essa herança é o fio condutor que liga a formação erudita à propensão às contaminações sonoras que marcam a obra de Serena.
Formada e com longa gaveta de trabalho, Serena Brancale estudou e percorreu circuitos de jazz, incluindo apresentações no circuito dos Blue Note, que a levaram até a China no ano passado. Sua estreia em Sanremo ocorreu em 2015, nas Nuove Proposte, com "Galleggiare", um tema claramente influenciado pelo jazz. Desde então, a trajetória mescla turnês, colaborações e hits mais leves — sem, contudo, renegar o percurso técnico e estético que a sustenta.
O que vemos em "Qui con me" é, na verdade, um reframe: o espaço íntimo de uma cantora que usa a canção como espelho do tempo, transformando dor em forma e memória em gesto público. A coexistência das duas almas — a da intérprete popular e a da artista refinada — não é contradição, mas sim uma estratégia poética. É a semiótica do viral e da tradição conversando no mesmo palco, o roteiro oculto da sociedade musical contemporânea.
Se a metamorfose de Serena Brancale em Sanremo chama a atenção, é porque nos oferece um pequeno manual sobre a pluralidade artística no presente: a artista não apaga as suas origens nem as suas guinadas, antes as costura. E, ao fazer isso, fazemos todos um pouco de memória com ela.
Publicado em 25/02/2026