Perfusão a quente: a nova fronteira para a segurança no transporte de órgãos

OCS e perfusão a quente prometem reduzir danos no transporte de órgãos; custo e reembolso são barreiras a vencer na Itália.

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Perfusão a quente: a nova fronteira para a segurança no transporte de órgãos

Por Giulliano Martini — O caso do menino que morreu em Nápoles após receber um coração danificado trouxe à tona um problema técnico e organizacional de alta gravidade: a segurança no transporte de órgãos e a adequação dos recipientes utilizados. A prática tradicional de conservar órgãos sobre gelo tem mais de quatro décadas de uso em hospitais italianos, mas a tecnologia de perfusão a quente — representada pelo Organ Care System (OCS) — aponta para uma mudança de paradigma.

Em apuração junto a especialistas, o professor Igor Vendramin, diretor da SOC de Cardiochirurgia de Udine, explicou que "hoje existem aparelhos a temperatura controlada, com funções adicionais, que são mais caros e por isso não estão presentes em todas as estruturas". Segundo Vendramin, "no caso do menino de Nápoles, talvez teriam evitado chegar, após horas de transporte, com um coração ‘congelado’". O especialista classificou como um "erro catastrófico" a utilização de gelo seco em lugar do gelo de água no compartimento do órgão.

Para o ministro da Saúde, Orazio Schillaci, há a necessidade de "buscar soluções melhores": em setores sensíveis, afirmou, é imprescindível dispor de "instrumentos superiores para garantir o transporte com máxima segurança".

O que é a tecnologia Organ Care System

A tecnologia OCS é produzida pela empresa americana TransMedics, fundada em 1998 pelo médico e pesquisador Waleed Hassanein. Em declaração à imprensa, Hassanein afirmou: "Dedicamos 28 anos a transformar a conservação de órgãos para transplante, passando das técnicas danosas do frio à perfusão oxigenada a quente". O sistema mantém o órgão em condições fisiológicas, à temperatura corporal, dentro de embalagens transparentes que permitem verificar em tempo real a viabilidade do tecido.

No modelo de perfusão, o órgão continua a receber oxigênio e nutrientes, o que reduz os danos associados à conservação a baixas temperaturas e possibilita testar a vitalidade antes do implante — uma vantagem clara para minimizar riscos aos receptores.

Barreiras na adoção

O principal entrave, até o momento, são os custos. Hassanein lamenta que o OCS "seja usado de forma limitada na Itália", citando a ausência de mecanismos de reembolso pelo Serviço Nacional de Saúde para cobrir seu uso. Contudo, há avanços legislativos: a Lei de Orçamento 2025 aprovou uma dotação destinada a ampliar o acesso a tecnologias de perfusão. Agora aguarda-se um decreto regulamentar do Ministério da Saúde que libere esses recursos e estabeleça critérios de reembolso e utilização.

Do ponto de vista prático e logístico, a adoção em larga escala exigirá treinamento, protocolos padronizados e uma rede de transporte coordenada. Em síntese, trata-se de um desafio técnico e de governança: integrar inovação clínica com financiamento público e processos operacionais seguros.

Raio-x e implicações

O episódio em Nápoles funciona como um alerta. O setor não pode conviver com práticas que se mantêm por tradição quando há evidências de alternativas capazes de reduzir morbidade e mortalidade. A transição para sistemas de perfusão a quente é uma questão de segurança do paciente, investimentos estratégicos em tecnologia e definição clara de responsabilidade institucional.

Com apuração in loco, cruzamento de fontes e entrevista com especialistas, o fato traduzido é este: existe tecnologia comprovada para melhorar a conservação e o transporte de órgãos; faltam, por ora, cobertura financeira e implementação uniforme. A expectativa é que o decreto do Ministério da Saúde, a ser publicado em breve, abra caminho para maior difusão do OCS na prática clínica italiana.