Curdos no tabuleiro do Oriente Médio: ambiguidade estratégica entre Teerã e Tel Aviv e a luta por autonomia

Marco Severini analisa a ambiguidade dos curdos no Oriente Médio e sua relação com Irã, Israel e a luta por autonomia.

Curdos no tabuleiro do Oriente Médio: ambiguidade estratégica entre Teerã e Tel Aviv e a luta por autonomia

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Curdos no tabuleiro do Oriente Médio: ambiguidade estratégica entre Teerã e Tel Aviv e a luta por autonomia

Por Marco Severini — No complexo tabuleiro geopolítico do Oriente Médio, o papel dos curdos permanece uma das peças mais ambíguas e decisivas. A sua busca secular por autonomia, atravessando fronteiras entre Turquia, Iraque, Síria e Irã, convive com alianças pragmáticas que desafiam a lógica de blocos ideológicos clássicos e redesenham, em silêncio, eixos de influência.

Nos últimos dois anos, as tensões entre Teerã, Tel Aviv e Washington se intensificaram, alimentadas por protestos no Irã e pela persistente guerra civil na Síria. Relatos regionais e comunicados oficiais apontam para uma convergência preocupante: grupos separatistas curdos e serviços de inteligência estrangeiros — citados como CIA, Mossad e MI6 — teriam explorado mobilizações populares para tentar acelerar a mudança de regime em Teerã. Ao mesmo tempo, surgiram confissões de militantes curdos admitindo atos violentos durante as manifestações, inclusive mortes de civis e agentes, com a intenção explícita de desestabilizar o país.

Essa combinação de ação interna e apoio externo cria uma tensão estrutural. Para o Estado iraniano, a presença de atores curdos armados ao longo das suas fronteiras representa uma ameaça existencial; para os curdos, a articulação com potências externas é, com frequência, uma alavanca necessária na busca por autonomia. É uma dança de risco, onde cada lance altera a configuração regional — lembrando um jogo de xadrez em que a segurança de uma peça depende da fragilidade de outra.

No teatro sírio, a situação adiciona outra camada de complexidade. As áreas do Rojava, ricas em infraestruturas energéticas, tornaram-se foco de confronto. Reportagens recentes sobre a ofensiva de milícias denominadas Al-Sharaa indicam a tomada de territórios como Raqqa e Deir ez-Zor e de poços petrolíferos que historicamente alimentam o projeto político-curdo do Nordeste sírio. O comandante das FDS, Abdi, declarou que não haverá rendição: "nenhuma rendição dos curdos", afirmou, sublinhando a tenacidade do projeto de autodeterminação.

Paradoxalmente, o mesmo ator estratégico que em vários momentos foi parceiro de ocasião dos curdos — Israel — também ataca posições curdas na Síria quando entende que seus interesses de segurança regional são postos em risco. Tel Aviv, historicamente, identificou nos curdos um contrapeso aos Estados árabes e ao expansionismo iraniano; nos anos 1960 e 1970, ofereceu apoio a movimentos curdos no Iraque como parte de uma política periférica destinada a isolar inimigos. A recompensa realista dessa tática é ambivalente: aliados quando convém, alvos quando necessário.

Do ponto de vista geoestratégico, os curdos representam uma coalizão de interesses e contradições. A sua fragmentação interna — entre lideranças e projetos políticos distintos — somada à pressão de Estados vizinhos, transforma qualquer avanço rumo à criação de um Estado curdo em um movimento de tectônica de poder com repercussões regionais. As alianças com potências externas oferecem proteção e recursos, mas também vinculam causas curdas a agendas que nem sempre coincidem com a sua autodeterminação plena.

Concluo com um princípio diplomático simples: em um cenário onde as fronteiras formais permanecem intactas, as fronteiras de influência se movem. A ambiguidade curda é, portanto, menos uma escolha estratégica espontânea do que uma consequência inevitável de um ambiente regional fragmentado, onde cada jogador — nacional ou estrangeiro — tenta um movimento decisivo para reforçar sua posição no tabuleiro.

Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.