Meloni e Merz articulam roteiro pela competitividade da UE: mercado único, desburocratização e neutralidade tecnológica
Itália e Alemanha exigem mercado único concluído, revisão do CBAM/ETS e neutralidade tecnológica para impulsionar a indústria europeia.
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Meloni e Merz articulam roteiro pela competitividade da UE: mercado único, desburocratização e neutralidade tecnológica
Por Marco Severini — Em um movimento que desenha um xadrez estratégico no coração da União Europeia, a Itália e a Alemanha apresentaram um documento conjunto com prioridades claras para reforçar a posição industrial do bloco. Assinado também pelo governo belga na véspera do encontro informal sobre competitividade no castelo de Alden Biesen, o texto expõe uma agenda de ações práticas a ser apresentada ao Conselho Europeu de 19 de março.
Os eixos centrais do documento são, em termos diretos: a simplificação normativa, a revisão do CBAM (Mecanismo de Ajustamento de Carbono na Fronteira), a futura reformulação do sistema ETS, a conclusão do mercado único e o princípio da plena neutralidade tecnológica. Em linguagem diplomática e de Estado, Roma e Berlim pedem que a Europa passe da retórica à implementação, com "iniciativas, mandatos e prazos" claros para desbloquear crescimento e reduzir custos do setor produtivo.
Um ponto pragmático do plano é a proposta de um "28º regime jurídico" a ser adotado até o fim do ano, concebido para superar a fragmentação dos marcos legais nacionais que ainda cerceiam a expansão das empresas inovadoras. Trata-se de um desenho institucional pensado para criar alicerces mais firmes ao livre funcionamento do mercado único, eliminando barreiras que hoje funcionam como fossos invisíveis entre jurisdições.
Ao mesmo tempo, a nota conjunta sublinha a urgência de uma consistente desburocratização: os encargos administrativos excessivos — recorrente entrave às empresas europeias — precisam ser cortados para permitir investimento e inovação. Nesse spirit, o documento indica que o "pacote automóvel", a revisão do CBAM e a reforma do sistema ETS devem ser orientados para retirar ônus desnecessários à indústria, preservando, porém, os objetivos climáticos.
Outra proposta de relevo é a introdução de um "mecanismo de freio de emergência" dentro do processo legislativo europeu, que permitiria a intervenção — a pedido de um Estado‑membro — para pôr fim a encargos legislativos excessivos que surgirem durante as negociações. Em termos de diplomacia técnica, é uma tentativa de balancear ambição regulatória com flexibilidade operacional.
O documento também pede foco na redução do custo da energia e numa política comercial mais ambiciosa, sinais de que a agenda não é apenas normativa, mas logística e geoeconômica: trata-se de posicionar a indústria europeia num tabuleiro global cada vez mais competitivo e multipolar. A sintonia entre a primeira e a segunda potências industriais da UE — representadas por Giorgia Meloni e Friedrich Merz — confere ao apelo um peso político substancial.
Da minha perspectiva, a iniciativa é um movimento deliberado para redesenhar, passo a passo, uma tectônica de poder econômica dentro da União, alinhando reformas internas com vetores externos de competição. Não é apenas um punhado de propostas técnicas: é uma tentativa de remodelar, com instrumentos jurídicos e práticos, os corredores por onde a indústria europeia circula.
Resta saber se os demais 25 Estados‑membros acolherão o ritmo e o formato propostos. O desafio será traduzir este roteiro em legislação que preserve coerência climática e solidariedade entre Estados, sem sacrificar a capacidade de competir. Em termos estratégicos, é o movimento de uma peça-chave no centro do tabuleiro — que pode abrir fileiras ou, se mal calibrado, gerar novas trincheiras políticas.