Eileen Gu: a jovem milionária do freestyle que brilha em Milano Cortina 2026

Eileen Gu: trajetória entre vitórias, identidade e mercado. Saiba por que a esquiadora é a grande figura de Milano Cortina 2026.

Eileen Gu: a jovem milionária do freestyle que brilha em Milano Cortina 2026

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Eileen Gu: a jovem milionária do freestyle que brilha em Milano Cortina 2026

Por Otávio Marchesini, Espresso Italia

Nos corredores da história olímpica recente, poucos nomes condensam com tanta clareza tensões identitárias, poder comercial e excelência esportiva como Eileen Gu. Aos 23 anos, a esquiadora de freestyle — nascida em São Francisco, filha de pai norte-americano e mãe chinesa — reafirmou em Milano Cortina 2026 o lugar que já ocupa no imaginário público: atleta, modelo e fenômeno econômico.

Na tarde de 9 de fevereiro, no cenário alpino do Mottolino, em Livigno, Gu conquistou a medalha de prata no slopestyle, performance que acrescenta um novo capítulo à biografia de uma competidora que, apesar da juventude, já coleciona feitos raros. Em Pequim-2022, tornou-se a única atleta na história dos Jogos a faturar três medalhas em disciplinas distintas do esqui freestyle numa mesma edição — ouro no big air e no halfpipe, prata no slopestyle — espetáculo que a projetou além das pistas.

O que distingue Eileen Gu não é apenas a sucessão de conquistas técnicas mas a sua dupla condição simbólica. Após competir pelas seleções americanas até 2018, ela optou por representar a República Popular da China a partir de 2019, movimento que ultrapassa a esfera estritamente esportiva e tange relações culturais, diplomáticas e de identidade pessoal: uma jovem com formação transnacional que circula entre mundos e públicos distintos.

No plano econômico, Gu se tornou uma exceção entre atletas de esportes de inverno: em 2025, seus ganhos aproximaram-se de 23 milhões de dólares, cifra que a colocou como a atleta mais bem paga das Olimpíadas de 2026 até o momento e como a quarta mulher mais bem remunerada do esporte global — atrás apenas de nomes do tênis como Iga Świątek, Aryna Sabalenka e Coco Gauff. Marcas de luxo, entre elas a francesa Louis Vuitton, a perseguem com contratos de embaixadora. Sua presença nas passarelas e nas redes sociais (mais de dois milhões de seguidores) transforma cada manobra em produto de consumo e cada vitória em ativo de marca.

Há, portanto, duas leituras possíveis da ascensão de Gu: a celebratória, que vê nela uma prodígio multifacetada — estudou em Stanford, domina a técnica e a estética — e a crítica, que observa como o esporte de alto rendimento se tornou plataforma para negociações identitárias e econômicas. Como repórter que entende o esporte como retrato social, interessa-me menos a anedota do glamour e mais o que sua trajetória diz sobre o presente: clubes, federações e mercados reconfiguram atletas em símbolos globais, e as escolhas de filiação nacional passam a dialogar com oportunidades e narrativas maiores.

Em Livigno, entre saltos e aplausos, Eileen Gu seguiu cumprindo o papel que o tempo e o circuito de elite parecem lhe reservar: um monumento móvel, ao mesmo tempo contrapartida esportiva e peça de um tabuleiro cultural mais amplo — onde medalhas pesam, mas a interpretação dessas medalhas pesa ainda mais.