Escritores mobilizam-se para salvar a Biblioteca Angelo Marsiano à beira da fratura em Niscemi

A Biblioteca Angelo Marsiano, com 4.000 livros, corre risco após a frana em Niscemi; escritores e festival Logos propõem ação imediata.

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Escritores mobilizam-se para salvar a Biblioteca Angelo Marsiano à beira da fratura em Niscemi

Por Chiara Lombardi — A imagem que ficou viral — o carro suspenso no vazio após a frana que rasgou o costone sobre o qual Niscemi se apoia — é um símbolo dramático. Mas, como em todo bom roteiro, há um plano de cena mais íntimo que pede atenção: a Biblioteca Angelo Marsiano, localizada no bairro Sante Croci, está literalmente no limiar do abismo.

Dentro desse edifício repousam cerca de 4.000 livros, documentos, mapas e cadernos que mapeiam a história local. Não se trata apenas de volumes empoeirados: é a memória comunitária, o arquivo afetivo que compõe a identidade de uma cidade que resiste. Frente ao risco iminente, um grupo de escritores sicilianos decidiu entrar em campo para evitar que esse patrimônio desapareça.

Niscemi, scrittori in campo per salvare la biblioteca sul baratro — agi.it
Crédito: Niscemi, scrittori in campo per salvare la biblioteca sul baratro — agi.it

O apelo partiu de Stefania Auci, voz conhecida por sua saga dos Leoni di Sicilia. Para Auci, o perigo é duplo: perder a memória dos indivíduos — evidenciada pelas casas devastadas e pelos retalhos de vidas expostas — e perder a memória coletiva encapsulada naquela biblioteca, obra de um intelectual de Niscemi dedicado a conservar a história local.

Nadia Terranova, finalista do Strega e autora que já tratou de tragédias históricas como o terremoto de Messina de 1908, ecoa o chamado. Ela lembra que os moradores têm razão ao recusar o abandono e a ideia de uma 'new town'. "Se o coração de uma cidade é sua biblioteca — sua memória e espaço de encontro — é urgente que esse lugar seja salvo e posto em segurança, para voltar o quanto antes a ser lugar de conforto e debate", afirma Terranova. A organizadora do festival Logos oferece, junto a Cristian Guzzardi, Giovanni Lo Giudice e Marcello Barrale, o espaço da próxima edição em setembro para debater com os curadores formas concretas de preservar essa herança.

Barbara Bellomo, autora de 'A Biblioteca dos Físicos Desaparecidos', põe o foco no lado humano: o "pesadelo" que as famílias vivem e a necessidade prática de tentar resgatar o conteúdo quando possível. "Proteger esses livros significa proteger a própria identidade da comunidade, sua história e seu futuro", diz ela.

Francesca Maccani, não siciliana de origem, mas adotada pela ilha em sua obra, completa: "Não são só livros: são raízes, identidade, futuro. São o testemunho vivo de uma comunidade que sempre acreditou na cultura como bem comum e ponte entre gerações". Sua fala traduz o sentimento de que a cultura excede fronteiras geográficas — é um ativo simbólico que informa o presente e legitima o futuro.

Além dos pedidos públicos, a mobilização dos escritores tende para ações práticas: mapear o acervo, articular logística segura para remoção de materiais sensíveis, e pressionar autoridades para medidas emergenciais de contenção da encosta. A questão extrapola o local: é o espelho do nosso tempo, um roteiro oculto que nos lembra como memória e lugar se entrelaçam.

Enquanto isso, a imagem do carro pendendo no vazio deve dar lugar a outra cena — menos espetacular, porém mais simbólica: voluntários, bibliotecários e escritores trabalhando juntos para que os livros da Biblioteca Angelo Marsiano continuem a contar a história de Niscemi. Salvar esses volumes é, em última instância, salvar o fio que liga gerações e oferece sentido ao presente.